É a vida, eu repito
Série: gestos da vida I — repetir
Repito. Os filmes que gosto, revejo sem pudor. As sobremesas, os cafés, os encontros com os amigos. Repito as manhãs longas aos domingos e meus rompantes de ler nestas horas mais lentas e ficar feliz ao imaginar uma vida em que eu leria todas as manhãs e escreveria sem pressa. Repito a pontada de melancolia das segundas e o ímpeto da travessia, as roupas para trabalhar, a satisfação amiúde da casa limpa, os biquínis nos verões, o deslumbre com a aurora.
Repito juras de amor a meu amado, sempre as mesmas, e dengo minhas crianças, sempre crescendo.
Repito para colher tudo que é vida para mim e sei do tempo, redemoinho que engole casas e árvores e faz de tudo cinzas.
Nenhuma repetição dá conta, ainda assim sigo distraída pelas novidades. Pequenos tesouros surgem no caminho. O novo chega e, quando encontra morada em mim, aprende a valsa da repetição.
Quando repito, invento.
(a ponte japonesa de Monet, que teve muitas versões em sua série Nenúfares)



