Janela em maio
Ontem em reunião do Janela discutimos O que Ela Sussurra de Noemi Jaffe. Em março, escrevi sobre o livro por aqui ( O que ela sussurra), mas ontem, foi dia de troca entre pares, e novas leituras surgiram. A discussão orbitou em três eixos:
A história de Óssip e Nadedja: o que a ficção alcança, que não é matéria de biografia? Se os poemas existiram porque foram sussurrados, quem os escreveu? Nadedja e sua memória co-escreveram esses versos?
Os espiões e os anfitriões hospitaleiros: as relações com o poder num estado totalitário, a pressa em agradar e se alinhar de alguns, os pequenos-grande heroísmos de outros, relações com o presente, e os “cumpridores de dever”.
Os objetos na trama: índices do desejo e da penúria na trama, de outras vidas possíveis, com alguma beleza, com algum conforto. As repetições dos objetos não possuídos, uma vida de não-ter.
Outros tópicos abordados foram a reação da protagonista quando soube da morte de Stálin; a paranóia mais ou menos acertada em relação aos espiões; a melancolia de se saber, no futuro, esquecidos. Ainda não, porém. Celebramos os dois ontem, por meio da prosa de Noemi. Finalizo com dois dos trezentos poemas sussurrados:
Um corpo me foi dado — e o que fazer assim Com ele que é tão único, algo tão de mim.Pela alegria calma em respirar, viver, Me diga então a quem eu devo agradecer?Eu cuido do jardim e a flor eu também sou. No cárcere do mundo sozinho eu não estou.Nos vidros do eterno se deitaram já Minha respiração e o quente que em mim há.E há de ser impresso nele um arabesco, que é irreconhecível, feito agora, fresco.Deixemos que o instante jorre a borra ao lado — E o arabesco lindo não será riscado. [1909]
( Óssip Mandelstan jovem)
( Nadejda, cujo nome significa esperança e que tanto lutou)
Se os inimigos nossos me pegarem E o povo ao me encontrar, não me saúde, Se de tudo no mundo me excluírem: De respirar, de abrir a maçaneta E de afirmar o que já é e surge E a nação se faz juiz e julga, — Se acaso ousarem me tomar por fera, Meu pão ao chão jogado ali se instale, — Mas não me calo e nem sufoco a dor, Pois traçarei o que traçar se pode, Tocando o sino na nudez do muro A despertar na rival treva um ângulo, Vou atrelar à minha voz dez touros Na escuridão com a mão conduzo o arado — E na calada desta noite insone, Peões luzindo a terra com seus olhos, — na legião de irmãos de olhos pisados — Cairei com o peso que virá da safra, Com rigidez rasgam-se ao longe pactos — Rebanho de anos ardoroso cai, Vai sussurrar trovões maduros Lenin, O decompor da terra irá correndo, Vida e razão despertará Stálin. [Fevereiro – começo de março de 1937]
Avante!



