O Homem do Castelo Alto
uma resenha para quem já leu ou assistiu, ou para quem gosta de spoilers
Inspirada no romance de Philip K. Dick, a série O Homem do Castelo Alto imagina um mundo em que os Aliados perderam a Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos foram divididos entre o Império Japonês e a Alemanha nazista. O ponto de partida é fascinante, e a história desmonta, com calma, crenças meritocráticas e simplificações deterministas. Seus personagens existem em uma zona de tensão: são moldados pelo mundo em que vivem, mas ainda carregam possibilidades latentes de se tornarem outra coisa.
O multiverso apresentado pela obra funciona como uma experiência filosófica. Em outras circunstâncias, com outra guerra, outro governo, outra infância, outros medos e incentivos, talvez fôssemos pessoas radicalmente diferentes. O herói poderia ser colaborador, o resistente poderia ser covarde, o cidadão comum poderia se tornar cúmplice de atrocidades. Não porque inexista uma essência moral, mas porque a identidade humana é muito mais frágil e contingente do que gostamos de admitir.
Quando Philip K. Dick escreveu o romance, em 1962, imaginar uma América nazificada era um exercício de especulação histórica extraordinário. Era preciso construir, quase peça por peça, uma realidade alternativa plausível: é interessante que esse universo nos é apresentado como uma nova normalidade. Décadas depois, em tempos de crescimento da extrema direita em diferentes partes do mundo, o universo da obra produz uma sensação inquietante. A força da construção cuidadosa do universo da obra de Dick se revela porque temos nos habituado a conviver com o fascismo de dentes arreganhados.
Nenhum personagem encarna melhor essa ambiguidade do que John Smith. Smith ama sua família, ama profundamente sua esposa e filhos, e ao longo dos episódios, muitas de suas decisões são justificadas para si mesmo como tentativas de protegê-los.
Houve muita crítica de expectadores que imaginavam uma redenção do Obergruppenführer em ascensão. Dá para entender, diante da interpretação carismática e espetacular de Rufus Sewell, que confere humanidade ao personagem. Mas a verdade é que o arco desse anti-herói que lutou pelos Aliados e trocou de lado ao final da guerra para evitar a fome e a morte de sua família foi coerente. Smith tenta construir uma espécie de ilha moral privada dentro de um oceano de barbárie. Ele acredita que pode servir ao regime, beneficiar-se dele, perpetuá-lo e, ao mesmo tempo, preservar intacta a pureza de seus afetos familiares. Aos poucos, a história demonstra a impossibilidade dessa separação, e a estrutura dessa família vai sendo corroída dentro da redoma de protegidos ( e vigiados, exigidos) do Reich.
Na obra de Dick, o personagem-título guarda um livro proibido. Na adaptação televisiva, a metalinguagem se mantém, mas o objeto perigoso torna-se uma série de filmes. O homem do Castelo Alto é o guardião de filmes estranhos. O conteúdo dessas imagens é simples e, ao mesmo tempo, revolucionário: elas mostram um universo em que os Aliados venceram a guerra. Juliana, uma das protagonistas, vê o filme no primeiro episódio, e toma uma decisão: a partir dali, ela precisa agir como se outro mundo fosse possível. Seu então noivo, Frank, nesse começo de radicalização política da personagem, lhe questiona: você acha que um filme muda alguma coisa? Os nazistas, que perseguem o Homem do Castelo Alto, concordam com ela: o filme é perigoso.
Entre as circunstâncias que nos formam e a liberdade que ainda nos resta, constrói-se o espaço da moralidade humana. A obra encontra sua grandeza questionando ora o livre-arbítrio, ora a pressa em obedecer ao sistema.Nesse sentido, de novo, lembro do livro O Que Ela Sussurra, de Noemi Jaffe. Juliana, ao contrário de Smith, escolhe resistir, mesmo quando o espaço para isso é estreito, instável e muitas vezes perigoso. Para Smith, é preciso escolher não repetir o passado de derrota e medo. Para ela, a única escolha possível é a que cria caminhos para um futuro melhor.




