O Presente
Escrevi Os Guardiões das Histórias para meus filhos. Começou assim: publiquei em 2020 Paixões Fevereiras, um romance curto, ou uma novela, em editora independente fundada com dois amigos-sócios-poetas. A ideia gestada em 2019, de jogar meu corpo-no-mundo-com-o-livro-na-mão foi reduzida a “lives” ( era pandemia) , e no máximo, um encontro reduzido aqui e acolá, (quando a vida voltou, mascarada e assustada). Nesse processo, a literatura, que havia ficado tanto tempo embotada na minha vida, até desabrochar com Paixões, parecia voltar ao casulo, considerando minha incapacidade de escrever, e principalmente de ler, pois sou antes de tudo uma leitora que às vezes derrama palavras, esbarro na necessidade de escrevê-las quando já não é possível apenas senti-las dentro de mim.
Por sorte, meus talismãs estavam comigo. A adulta não conseguia ler, pois ler é produzir sentidos e o mundo havia me tirado todas as bússolas, exceto uma. Líamos nossas coisas, eu e eles. Em quantas tardes de trabalho, exausta de uma rotina de urgências quase sempre infrutíferas, só o que me salvava da loucura era a expectativa de que mais adiante eu iria me recostar sob a luz âmbar com meus pequenos, e ler sem pensar em mais nada?
Apenas mergulhar numa aventura com Alice ou Peter Pan, apenas sentir a expectativa de uma revelação, a graça de uma fada, ou as estranhezas de um sábio, e sim, emocionar-me com as provações fora de casa de pequenos heróis e heroínas. Li pouca literatura infantil quando criança, e descobri uma nova virtude dos livros: pude me espantar como menina. Algumas dezenas de livros infantis depois, o mundo é mais abundante de maravilhamentos graças ao que lemos juntos ( e vida que vivemos mais juntos, em razão das leituras em comum). Em 2023, escrevi uma história nossa, embora completamente imaginada:
“Trica e Tatá vivem uma vida comum, morando com sua mamãe Malu e o cachorro Pipoca, embora sintam falta de quando tinham algo especial: um clube das histórias, que estava desativado desde o último Natal, porque a mamãe andava muito ocupada. Tudo muda quando uma série de acontecimentos os coloca em outra dimensão, no Mundo das Histórias, diante do Carteiro, que os convida para uma jornada mágica e perigosa. Agora, ao lado do irmão canino Pipoca, eles têm uma missão: salvar o Livro Primeiro, que contém a memória de todos livros já escritos, e das histórias que estão por vir, pois a terrível Quimera quer destruí-lo. Se o livro for tragado pela Quimera, as histórias acabam, e se esse for o fim das histórias...o que será do mundo?”
Uma noite qualquer em que os busquei da escola, montamos, eu e meu companheiro, uma cabana no quarto com sanduíches de atum e suco de laranja que derramou no lençol que fazia às vezes de toalha de piquenique. O livro, impresso de forma amadora, foi lido de uma vez só, sem tempo de tirar os uniformes da escola, ou para olhar notificações. A cabana, casa dentro de casa, novo mundo aqui dentro. Naquela noite ganhei, mais uma vez, o presente. Talvez, em alguma medida, querer agora publicar essa singela aventura seja aquela velha mania de leitores de todas as idades, de buscar de novo e de novas formas a sensação de inteireza e de absoluta vida que um livro pode dar, no tempo e espaço certos, o tesouro intraduzível. Ganhei deles um presente que acreditei perdido, e quero desenhar mapas por aí.

